O Sábio do Monte Asiático

Hugo havia viajado durante alguns dias até conseguir chegar ao destino almejado. A última etapa da longa viagem foi também a mais difícil, já que teve de fazer uma verdadeira escalada na mais alta das montanhas que formavam a grande região que visitava pela primeira vez.

Depois de finalmente atingir seu primeiro objetivo, tendo chegado ao pico da enorme colina, percebe, bem encima da planície formada no centro da imensa rocha, uma casinha simples, toda formada de alvas pedras e tendo por cobertura espécies de bambus entrelaçados. Tudo era mesmo como o amigo Carlos o havia dito. Foi para frente dela e bateu, por três vezes na única porta que tinha; logo notando que ela ia se abrindo lentamente, até que seus olhos conseguiram enxergar a figura mediana de um asiático que estava lá dentro.

Como Hugo sabia que aquele homem falava sua língua, o cumprimentou “Boa tarde senhor, preciso muito de sua ajuda” – Disse ele. “Olá, boa tarde”. – Respondeu o homem que, embora aparentasse ter mais de 70 anos de idade, demonstrava-se bem disposto e muito saudável, com voz suave e branda; logo lhe pedindo que entrasse.

Ao entrar na pequena sala, aquele senhor, em silêncio, acenou com a cabeça para que ele se sentasse numa cadeira de encosto que ficava próximo duma pequena mesa de madeira rústica, somente com um relógio despertador antigo em cima, com seus ponteiros da cor prata marcando meio dia e dez minutos. Em seguida, o sábio asiático e de corpo franzino, também se assentou ao seu lado numa outra cadeira, lhe pedindo  que contasse-lhe o motivo da sua vinda até ele. Imaginando cada palavra que falaria, Hugo passou a fazer o resumo de tudo o que havia vivido até aquele dia. Falou-lhe dos bons tempos de criança ao lado dos pais e de como estes sempre o amaram e lhe respeitaram; de sua juventude bem vivida, as boas notas na escola e como se dava bem com as meninas, até conhecer aquela que foi seu verdadeiro e único amor; e de como iniciara, ainda muito jovem, a vida bem sucedida nos negócios, até ter chegado ao auge de sua vida pessoal e profissional. Contou-lhe de como, após grande desvalorização das ações de sua empresa, sofrera uma crise, que não somente atingiu seus negócios, mas também sua família como um todo: havia entrado no vício do álcool e, pouco tempo depois, perdera, além da empresa, sua própria mulher, o único filho com somente dois anos, também perdera sua dignidade.

Depois de ouvi-lo atentamente em tudo o que ele lhe dissera, o sábio asiático, tendo feito breve reflexão, lhe interrogou: “O senhor sabe qual foi sua maior perda durante todo esse tempo?” “Não”. – Respondeu ele. “Sua maior perda foi o fato de o senhor não ter aceitado uma derrota que até poderia ser passageira, mas, por não ter sido planejada, aceita e assimilada, se alonga durante todo esse tempo”.

Ele pensou neste instante no que acabara de ouvir daquele senhor e, mesmo sem compreender muito bem o sentido do que lhe era dito, notou que tudo fazia sentido. Antes mesmo que começasse a refletir melhor sobre o assunto, percebe que seu interlocutor iniciara novamente sua fala.

“O senhor já imaginou se, ao invés de ter se revoltado pelo fracasso de seus negócios, o senhor houvesse recomeçado sua vida, sem jamais ter se desesperado e deixado sua família? Talvez hoje o senhor estivesse melhor do que antes”. Disse ele. “Na vida é assim: se acreditarmos que poderemos receber alguma coisa, fazendo o que deve ser feito, com fé verdadeira, Deus nos dará o que pretendemos; mas, ao contrário, se ‘entregamos os pontos’ e nos aceitamos como derrotados, certamente não haverá escapatória: o fracasso e o ‘fundo do poço’ nos esperará. Afirmou ele. Contudo, há sempre uma maneira de rever alguns desacertos vividos, creio que seu caso não seja um caso perdido”.

Neste instante, aquele senhor ergue-se devagar da cadeira em que estava e vai até um dos cantos do cômodo que ficava interligado a pequena sala em que estavam, ali, sob o olhar de Hugo, pega algumas folhas verdes que estavam expostas numa vasilha de barro, as lava e as coloca dentro de uma jarra que acabara de retirar de cima do fogão de lenha que tinha brasas flamejantes ao centro; após depositar todas as folhas dentro dela, ele volta em sua direção, trazendo consigo a jarra com o líquido ainda fervendo, chegando outra vez ao seu lado, deposita-a sobre a pequena mesa e retorna ao outro cômodo, novamente voltando em seguida com duas canecas nas mãos. Despeja um chá de aspecto esverdeado em cada uma delas e lhe entrega uma das canecas, pedindo para que ele bebesse.

Sentira um sabor diferente naquela bebida. Sabia que jamais havia provado algo de gosto semelhante; era meio amargo ao primeiro instante, mas apresentava aroma e sabor bom em seguida. Os dois tomaram, em silêncio, todo o conteúdo. Tão logo terminou, aquele senhor recebeu de suas mãos a outra caneca e as levou ao local que tinha pegado. Para a decepção de Hugo, quando o homem retornou a sala, já foi lhe dizendo que não tinha mais nada a lhe dizer, “seu tempo ali estava vencido”.

Apesar de está um pouco desapontado, agradeceu-lhe por sua atenção e por suas palavras e, meio sem jeito, levantou-se da cadeira em que estava e, olhando pela última vez para o velho relógio que repousava sobre a pequena mesa, nota que já eram pontualmente 4 horas da tarde.

 

Hugo desceu mais rápido do que desceria aquela montanha que, especialmente naquele dia, não estava tão gélida como de costume. Sua cabeça refazia tudo quanto o homem falara-lhe durante aquela tarde. Os pensamentos em sua mente eram ainda bastante confusos e estranhos naquele momento.

Ao voltar para sua terra e sua cidade, ele já conseguia, pela primeira vez após muito tempo, “ver o mundo” com outro olhar.

Foi para a casa de seus pais, onde já estava desde quando deixara a família; porém somente para pegar alguns pertences pessoais. Sem contar nada à ninguém, tomou o rumo que derrubaria, de uma vez por todas por terra, todo seu orgulho, medo e sensação de fracasso: voltaria para casa e viveria, para sempre, com a mulher e seu filho que agora já tinha três anos. Ele se lembrava do que ela o tinha dito, quando, após tudo o que vinham passando, ele havia resolvido sair de casa para não fazê-los sofrer as mesmas dores que ele vinha sofrendo: “no dia em que você mudar de ideia, eu e seu filho aqui estaremos lhe esperando, de braços abertos para recebê-lo de volta”.

Nesse momento, as lágrimas caíram de seus olhos. Ele tinha fé verdadeira em Deus e, tinha também algumas certezas, reconquistaria a família e procuraria fazê-los muito feliz, pois aquela sempre havia sido a maior riqueza que já possuíra.

Mal-Entendido

 

Aquela chuva insistia em não parar. Ele seguia, agora sem conseguir mais raciocinar sobre suas próximas ações. Não imaginava que tudo, naquela noite encharcada, tomasse tamanha proporção, bem sabia ele que jamais sua vida seria a mesma.

 

Duas horas antes

– Vocês dois aqui! Eu bem eu já vinha suspeitando de que havia alguma coisa entre vocês!

– Não é o que você está pensando Henrique. Não existe nada entre o Fernando e eu.

-Cale-se! Cale-se agora mesmo! Não diga nada, eu não sou idiota.

– Henrique, você está confundindo as coisas. A Cinthia vinha do trabalho e, como hoje não fui para a faculdade, resolvi sair de casa e lhe dei uma carona. Foi somente isso que aconteceu.

– Carona, com seu carro parado aqui, neste lugarejo escuro e sem movimento algum!

– É que ela queria conversar um pouco sobre alguns problemas…

– Certamente eu sou o problema. Agora eu vou criar mais um problema.

– Não Henrique, não! (gritos e choros por parte dela)

 

Ele puxa o outro do carro e o joga no chão; antes mesmo que pudesse se erguer, nota uma arma na mão do ex-amigo e, sem ter tempo nem mesmo para pensar, o derrubou com uma de suas pernas.

Os dois rolaram pelo terreno arenoso e escuro até que se ouviu um forte estrondo. (ela gritou mais alto ainda e entrou em pânico)

Era Tarde demais.

 

Tempo presente

Agora, estavam os dois ali, dentro de seu carro e sem destino certo. Ele desesperado por ter matado um amigo de infância para se defender, e ela por ter perdido o marido a quem sempre amou; simplesmente pelo fato de ter pedido ao amigo comum do casal para que lhe ouvisse por alguns minutos. Desejava falar dos ciúmes exagerados do marido.

 

 

Conquistas

Não conheceu a derrota, sempre foi um vencedor; desde quando era pequeno, muitas vitórias ele conquistou: ganhou dos pais e na escola, uma infância de vencedor; recebia dos amigos o respeito e atenção; seguiu alcançando conquistas, mas com alegria no coração.

 

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(Seguindo a ideia do Palhão no Blog do Lucas Palhão: Disponível em:  https://lucaspalhao.wordpress.com/2017/05/04/palavra-do-dia-falha/